quarta-feira, 21 de novembro de 2007

14 de novembro de 2006 ,São paulo,SP

Eduardo, meu amor

Estou com muitas saudades de você, cada dia que passo sem a sua presença sou como uma presidiária cumprindo sentença, não queria que fosse assim, queria ter você aqui comigo.
Fazem 24 dias que eu estou limpa, estou fazendo isso por você, e também pelo nosso filho! Pois é Eduardo, acho que você vai ser papai, não fiz o teste ainda,mas tenho quase certeza, sabe, coisas de mulher.
Espero, sinceramente, que a nossa ultima discussão não tenha abalado muito os seus sentimentos, como eu disse, já estou limpa a um bom tempo, e faço isso por você meu amor. Estava aqui ouvindo a música que você cantava todas as tardes de domingo antes de me chamar para te fazer companhia no tapete da sala, se lembra? O Mundo anda tão complicado, Legião Urbana...você não sabe o quanto eu me sinto só sem você, sem você pra me dizer que estou errada, que eu fico linda usando sua blusa de pijama, sem ouvir você cantar pra mim, são das coisas mais simples que eu sinto falta!
Te peço perdão por tudo que eu te fiz, estou realmente arrependida e faria de tudo pra apagar o que aconteceu, estou realmente disposta a mudar.

 Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor

Não demore ,estou te esperando, hoje e sempre.
Karla


Era noite, a chuva começara a cair, ela largou a porta do seu apartamento aberta e o telefone
estava fora do gancho,ao lado de um sofá branco de couro, um rascunho de uma carta estava
jogado juntamente com alguns frascos de remédios sobre um tapete de pelos bem macios. Seus passos apresados ecoavam pelas escadas, sem se cansar, ela desceu os 22 andares até a portaria, atravessou o hall sem notar que o porteiro falara algo com ela, abriu a porta e saiu.
A chuva estava fina,as pessoas ainda andavam normalmente apesar de uma escuridão sombria no céu, os faróis dos carros, os postes e as luzes dos comércios iluminavam as ruas, todos os bares e botecos estavam abertos, muita música alta, pessoas riam e conversavam, uma hora e meia da manhã de uma sexta feira,era de se esperar toda essa agitação. Mas agitação maior que essa era a que se passava em sua
cabeça. Ela começou a andar, sem destino algum.
Alguns quarteirões depois, a chuva aumentara repentinamente, as pessoas que antes riam e cantavam nos botecos corriam em busca de abrigo, os bares fechavam suas portas, os carros buzinavam com frequência, as luzes fortes,os gritos das pessoas, as pancadas de chuva cada vez mais forte, as trombadas e empurrões que levava daqueles que corriam, tudo, tudo a deixava confusa,ela se sentia sozinha no meio de toda aquela balbúrdia. Só fazia andar, suas roupas estavam encharcadas, ela sentia a chuva como se estivesse nua, seu cabelo estava caido nos olhos, cambaleava feito um bêbado, aquela solidão flagelava sua alma.
Resolveu se sentar ali mesmo, na beira da calçada, a leve corrente de água que se formava nas valas da rua passava por seus pés, o cheiro do asfalto molhado fez com que ela lembrasse de algo que queria muito esquecer...
Foi exatamente numa noite como essa que seu pesadelo começou. Ela estava com uns amigos em uma festa, alguns já tinham bebido demais, outros se drogaram demais, mas eram seus amigos, estar perto deles a deixava feliz, então estava tudo certo,tudo tranqüilo. Karla já estava acostumada, já havia experimentado algumas vezes, mas nada que saísse do seu controle.
Diego, ou melhor, Digão, era seu amigo da faculdade, aquele tipo de cara que todos queriam por perto, sempre simpático e bem humorado. Em uma roda de conversa entre os amigos ele começou a conversar com Karla, papo vai e papo vem, eles decidiram ficar a sós para a conversa fluir melhor. No meio da conversa Karla disse que estava se sentindo meio pra baixo por causa da morte de seu pai, Digão deu alguns conselhos a ela, mas viu que conselhos não adiantariam, então pensou ter a solução para os problemas de Karla. Foi então que elas foram apresentadas. Karla conheceu a Heroína, e elas criaram um laço muito forte desde então.
Karla se levantara da calçada, apesar de suas palavras naquela carta, era mais forte que ela, a solidão se juntava com a vontade de se sentir feliz, de se sentir bem ,algo que só a Heroína poderia proporcionar. Ela tentou resistir, mas foi em vão. Então mais uma vez elas se encontraram e Karla finalmente se sentiu em paz.
Depois de um tempo ela voltou para o apartamento, mal conseguia abrir a porta, e quando entrou foi logo procurando algo para beber. Bebeu um pouco, sentou-se no sofá, leu a carta que escrevera, bebeu mais um pouco, começou a chorar, escorregou para o tapete, bebeu mais, mais um pouco e mais um pouco. Grande erro, talvez o pior erro que já cometera, de repente uma dor muito forte invadiu o seu peito, ela se deitou sobre o tapete, sentia que Edu estava ao lado dela, acariciando seu corpo, podia ouvir ele falar, podia ouvir ele cantando, então fechou seus olhos enquanto aquela voz que ela jurava ouvir invadia seus pensamentos, e ali ficou,deitada no tapete com os olhos fechados enquanto a overdose tomava conta de seu corpo.


4 comentários:

Anderson disse...

Bem, iria mandar uma carta hoje, mas não preciso, pois voltarei a esse local. O local de meu nascimento após 5 anos.

Anônimo disse...

gostei da introdução Vander Lee...

Faz tanto tempo que não mando cartas... deu até vontade!

Anônimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

bom texto...
cheio de detalhes, da pra ter uma boa abstração do lugar onde se passa a historia...
mas cuidado para nao enfatizar demais esses detalhes, igual em Macunaima, onde o Mario de Andrade passa algumas longas paginas descrevendo a arvore...haha
me avisa quando escrever mais, fico bom , apesar de algumas passagens...